Cinema Expresso: “As Boas Maneiras”, 2017

Cinema Expresso: “As Boas Maneiras”, 2017

Originalmente publicado no Twitter @ericampi

O cinema brasileiro tem usado cada vez mais elementos do gênero do terror para trabalhar as questões sociais tão caras ao país, vide os filmes de Kleber Mendonça Filho. Com “As Boas Maneiras”, Juliana Rojas e Marco Dutra aumentam o espectro, juntando à soma de drama social e horror, a fantasia, a comédia de humor negro e de costumes e o musical.

Essa mescla serve bem ao propósito narrativo do filme, complexo tematicamente. De início, um drama de contrastes sociais escancara o abismo entre Clara, uma babá negra da periferia, vivida por Isabél Zuaa, e Ana, a agrogirl riquinha e grávida que vem morar sozinha na zona mais rica de São Paulo, interpretada por Marjorie Estiano. Mas um estranhamento se embrenha no filme em pequenas pitadas. Aos poucos, tensiona-se num pulsar sexual, social e sobrenatural.

Com isso, a narrativa que se sustentava com arquétipos, passa a estudar aquelas personagens, revelando novas camadas. Clara, com seu jeito durão e fechado, liberta suas particularidades sabendo que pode confiar em Ana. Ana, por sua vez, despe-se do estereótipo e mostra um passado cheio de cicatrizes emocionais. As duas atrizes são fantásticas em cena.

Clara atravessa, literal e figurativamente, a ponte (do Rio Pinheiros) que separa as classes sociais. Mas é como se os diretores mostrassem que essa travessia é amaldiçoada. Quanto mais as personagens se unem, mais os elementos sobrenaturais tomam forma. Se antes o apartamento de Ana parecia estéril e limpo, aos poucos vai se profanando com o ar gótico estilizado com que o design de produção banha a cidade de São Paulo nas cenas externas. É a fantasia de tons fabulescos que dá as caras.

Não são só os gêneros fílmicos que se misturam em “As Boas Maneiras”. O roteiro de Dutra e Rojas também se empenha em colidir diversas crenças da realidade brasileira. É o mito do lobisomem que surge da relação sexual com um padre, tipicamente interiorano, é o catolicismo que quer exorcizar qualquer coisa que fuja das boas maneiras e costumes. Faz-se um abrasileiramento das lendas. Aqui, o clímax com a criatura estranha não acontece no Halloween, mas durante uma Festa Junina, e a turba raivosa não carrega tochas, mas luzes pisca-pisca.

Mesmo com o amálgama de influências, tudo no filme passa uma sensação de algo tipicamente brasileiro, inclusive seu próprio fazer cinematográfico. Desde o Matte Painting (pintura digital) do cenário que reproduz uma São Paulo fantasmagórica, e o flashback em forma de desenho, até a artificialidade de algumas atuações da segunda metade e os pontuais números musicais. Mas em vez de se tornarem defeitos, essas características agregam à nacionalização de convenções dos gêneros. E o design da criatura, mistura de “boneco” com efeito visual, é extremamente competente.

“As Boas Maneiras” é um filme de e sobre transgressões, que parecem amaldiçoadas nas atuais conjunturas. Daí a importância da questão da maternidade que o filme aborda, a dualidade entre querer proteger e ao mesmo tempo lutar para que o diferente seja aceito. Por mais estranho que seja, o longa deve ser apreciado e defendido de todos os moralismos e preconceitos que possa provocar. O mundo e o cinema precisam de transgressões.

Nota: 4,5/5

Cinema Expresso: Jurassic World – Reino Ameaçado (Jurassic World – Fallen Kingdom , 2018)

Cinema Expresso: Jurassic World – Reino Ameaçado (Jurassic World – Fallen Kingdom , 2018)

por Eric Campi

A franquia “Jurassic Park” nunca conseguiu se desvencilhar completamente do marco que foi o filme original. As duas sequências (a pior, talvez, seja a dirigida pelo mesmo Steven Spielberg) fracassaram ao tentar recriar o frescor do primeiro. “Dinossauros não assustam mais ninguém” dizia a requel “Jurassic World”, com uma piscadela metalinguística que pareceu agradar aos fãs e aos acionistas (esses que seriam devorados pelos dinossauros se fizessem parte daquele mundo). Agora, é J.A. Bayona quem tenta nos convencer de novo a voltar para as ilhas que abrigaram o parque. Ainda que continue derivativo, “Reino Ameaçado” se beneficia do olhar apurado de seu diretor para as convenções do gênero.

A trama é uma bobagem. Tão grande que a maior reviravolta é vomitada por um dos personagens lá pro final do filme e não carrega nenhuma implicação dramática. Mesmo o Owen Grady de Chriss Pratt tem pouco a fazer a não ser posar de Indiana Jones genérico com um recém-adquirido senso de humor. E os personagens de Rafe Spall, Justice Smith e Daniella Pineda cumprem apenas funções narrativas.

Como se o público fosse incapaz de absorver novos símbolos “Jurassic World: Reino Ameaçado” segue o que parece ser uma marca do cinema pipoca contemporâneo e aposta na nostalgia forçada, característica que funcionou com “Star Wars: O Despertar da Força”, mas não com “Círculo de Fogo: A Revolta”, pra ficar em dois exemplos recentes. Dessa vez voltam os empresários unilaterais que viram comida de dinossauro, os militares inescrupulosos, os velociraptors, o cientista meio louco, o milionário ideologista, o T-rex-machina… E dá-lhe rimas visuais com os capítulos anteriores.

Pelo menos, aqui, o diretor se presta a desconstruir alguns desses símbolos, mesmo que nem todas as descontruções funcionem. Dessa vez, por exemplo, a ilha está em perigo e são os dinossauros que precisam ser salvos. A câmera mostra mais de uma vez as botas de Bryce Dallas Howard para se certificar de que ela não usa mais os saltos do filme anterior. Os braquiossauros correm para fugir da erupção de um vulcão. Os velociraptors… Bom, os velociraptors passam por uma mudança que chega a ser desrespeitosa com o incrível terceiro ato do filme original. É nesses soluços de criatividade, porém, que o longa se sustenta.

Bayona é um diretor que entende de gênero e se esforça pra aproximar sua obra do terror fantástico. Desde a sequência inicial, o realizador faz bom uso do suspense através de uma fotografia que prioriza as sombras e o contraluz, assim como no plano sem cortes da giosfera submersa, que, ao não tirar a câmera de dentro da esfera, passa uma sensação de confinamento e falta de ar ao espectador.

É na segunda metade que, enfim, Bayona assume de vez sua predileção pelas convenções de gênero, quando a ação migra para uma mansão de estilo gótico que abriga o melhor que “Reino Ameaçado” tem a oferecer. Como se não fosse divertido o suficiente ver dinossauros comendo pessoas imbecis, o cineasta nos brinda com suas melhores composições visuais. A apresentação do indoraptor no leilão é plasticamente perfeita. Assim como a sequência entre os dioramas do minimuseu da mansão, quando todas as luzes se apagam e vemos apenas a sombra do animal passando ao fundo ou quando estas voltam a acender e a cada novo espaço que é iluminado aumenta-se o medo da fera reaparecer.

O auge do simbolismo do terror fantástico vem com o dinossauro que anda pelos telhados da mansão à luz da lua enquanto a câmera de Bayona dá cambalhotas para acompanha-lo e na sequência em que Maisie (vivida por Isabella Sermon) se esconde debaixo dos lençóis de sua cama. É a brincadeira com o gênero. O monstro se aproxima sorrateiramente pela janela e puxa o cobertor com uma pata estendida. A imagem típica dos filmes-pesadelos.

Fica parecendo que o diretor só pode se libertar depois de passar por cada batida exigida pelos produtores e aguardada pelo público. Espera-se, portanto, que nas continuações que certamente virão, a boa visão de um diretor não seja ofuscada por exigências formulaicas do estúdio e que venha acompanhada de uma dramaturgia ao menos convincente.

Nota: 3/5

Lavoura Arcaica e a utopia por um mundo melhor

Lavoura Arcaica e a utopia por um mundo melhor

Por Eric Campi e Paulo Henrique Pompermaier

Antes mesmo do início das filmagens de Lavoura Arcaica, que há 15 anos fazia sua estreia nos cinemas brasileiros, toda a equipe se isolou em uma fazenda. Lá, havia oficinas teóricas ministradas por convidados como Leonardo Boff, e outras em que as atrizes aprendiam, por exemplo, a marcar os passos da Dabke, a dança folclórica árabe que aparece na clássica cena da grande roda. “Éramos felizes”, afirma o cineasta Luiz Fernando Carvalho, diretor do filme.

Baseado no romance homônimo de Raduan Nassar, publicado em 1975, Lavoura Arcaicaganhou mais de cinquenta prêmios internacionais e é considerado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) um dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

A narrativa conta a história de André (Selton Mello), jovem do meio rural que foge de casa, cansado das cobranças do pai autoritário (Raul Cortez). Sua mãe (Juliana Carneiro da Cunha), então, manda Pedro (Leonardo Medeiros) atrás do irmão, que retorna e vive uma relação incestuosa com a irmã, Ana (Simone Spoladore).

Ao ter contato com o romance de Nassar, Carvalho foi “correndo para as entrelinhas daquela coisa”. Ali, encontrou uma metáfora política que expõe o embate entre opressores e oprimidos, tradição e liberdade, além de um texto que “clama pela utopia de um mundo melhor, mais belo e justo para todos”. “Minha fome naqueles tempos era trabalhar com a linguagem, com essa alquimia invisível, com qualquer coisa que me desmentisse, que bagunçasse minhas certezas”, relembra.

Para o escritor e psicanalista Renato Tardivo, autor de Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica, o filme é uma das mais importantes obras do cinema brasileiro “de todos os tempos”. “Se o embate de André, narrador-protagonista, era com a palavra do pai, o embate do filme é com as palavras do livro: o longa traz o livro para dentro de seus olhos.”

Em entrevista ao site da CULT, Luiz Fernando Carvalho relembra momentos das gravações e fala sobre os temas contidos nas entrelinhas do romance de Raduan Nassar.

CULT – Como a prosa de Raduan te motivou a adaptar a narrativa poética de “Lavoura Arcaica”? 

Luiz Fernando Carvalho – Aquele livro é uma porta. Ou você entra ou não entra. Ao leitor é dada esta escolha, como quem caminha sobre um fio de navalha. Pode-se desistir na segunda ou terceira página. Antes, porém, caberia ali constar um aviso do poeta Jorge de Lima: “Se vós não tendes sal-gemas, não entreis nesse poema”.  Uma enorme convergência nasceu entre a alma do texto e o meu momento de vida.  Vai ver as minhas cicatrizes estavam abertas. Compreendi porque aquela prosa só deveria existir daquela maneira. O drama em si não é novo, como todos sabem, trata-se da eterna luta entre a tradição das leis paternas versus a ânsia pela liberdade de um filho torto, seu desejo de alçar vôos, arrebentar cercas. Mas Raduan é um poeta, um criador que mexe nas entrelinhas da coisa e, portanto, os conteúdos desta fábula mítica acabam se estilhaçando em mil direções, transformando tudo em um caleidoscópio gerador de linguagem – entendendo-se linguagem como fruto de uma necessidade, uma questão de vida ou morte. E a minha fome naqueles tempos era trabalhar com a linguagem, com essa alquimia invisível, com qualquer coisa que me desmentisse, que bagunçasse minhas certezas. Fui logo correndo para as entrelinhas daquela coisa.

O filme utiliza uma estética que se aproxima do barroco, distanciando-se daquele naturalismo do começo dos anos 2000 presente em Cidade de DeusO Invasor eCarandiru, por exemplo. Por quê?

O cinema, como qualquer manifestação artística, quer mesmo é discutir a vida. O que me interessa nas minhas tentativas não é outra coisa senão tocar na vida! O resto eu quero me afastar cada dia mais. Não excluo qualquer possibilidade de se alcançar o humano por conta deste ou daquele gênero. Não é uma questão de gênero – pouco importam os vocabulários. Não acredito em regras que possam vender soluções. Tudo é tentativa. Importa, sim, é a coragem de remexer bem fundo, de não fugir se agarrando à estilizações e por aí vai. No meu modo de sentir, quando vamos ao cinema, vamos à procura de vida! Mas, se por outro lado, não houver uma mínima diferença entre a vida que vemos e vivemos do lado de fora da sala de cinema e a vida contida em uma tela iluminada por imagens, não faz o menor sentido entrarmos no cinema. Essa diferença é a linguagem, a experiência do cinema em si.

Quais histórias te marcaram mais durante as gravações?

No período de preparação, isolados na fazenda, nosso exercício diário era composto de oficinas teóricas e práticas. As teóricas eram ministradas por convidados, como Leonardo Boff, entre outros. As práticas ensinavam as atrizes a fazer o pão, a bordar, a dançar a dança do ventre e a marcar os passos do Dabke – a dança da grande roda. Tudo isso acontecia ao lado das leituras e das grandes sessões de improvisação sobre o livro. Todas as manhãs nós ordenhávamos, preparávamos a terra, arávamos (no método arcaico, puxado por bois), semeávamos grãos de milho e feijão. As mulheres tinham uma horta só delas, com tomates, alfaces, rabanetes e pequenas folhas. Era chamada por nós de “a horta da Mãe”. Quando chovia, todos corríamos para a janela e ficávamos contentes. Quando chovia muito nos preocupávamos com o feijão. Fiz questão do trabalho dos atores com a terra por não crer nestas preparações corporais importadas, que obrigam os atores a assumirem posturas sem uma íntima ligação com o contexto real. Queria uma preparação de corpo à brasileira. Então a nossa gestualidade foi ministrada pelos peões da fazenda: “Seu” Bernardino, Batuca, nossos mestres na ordenha, no cabo da enxada, na lavoura. Éramos felizes.

O que a narrativa pode trazer para o debate, 15 anos depois?

Entre as inúmeras reflexões que o Lavoura propõe, podemos entender o texto como uma grande metáfora política, expondo a luta entre opressores versus oprimidos; a tradição versus a liberdade individual. Leio muitas vezes como um oratório sobre o extermínio das liberdades, sejam elas individuais ou coletivas; este mesmo extermínio que nos levam às guerras dos dias de hoje, gerando milhares de excluídos pelo mundo todo. No texto ecoa a voz dos que são postos à margem, dos que gemem, daqueles famintos que não são aceitos na mesa dos satisfeitos demais. Sem falar da relação entre a ordem e a desordem do mundo, que no livro alcança patamares míticos, mas que também encontra lugar em uma espécie de espelhamento da realidade do nosso próprio país e as suas instâncias de poder, se revelando então como um texto que clama pela utopia de um mundo melhor, mais belo e justo para todos.

Clipe de “Four Out of Five” completa viagem conceitual de Arctic Monkeys rumo à evolução do som

Clipe de “Four Out of Five” completa viagem conceitual de Arctic Monkeys rumo à evolução do som

Publicado originalmente em Mad Sound, 14/05/2018

Por: Eric Campi

Com o clipe de “Four Out of Five”, Tranquility Base Hotel & Casino se firma como uma obra de arte — boa ou ruim, vai do gosto do ouvinte. O Arctic Monkeys seguiu a tradição de David Bowie, que influenciou muito os vocais de Alex Turner neste sexto disco de estúdio, o que culminou em um álbum, não em um amontoado de singles.

Tudo gira em torno de um conceito a ser explorado pela banda e pelo ouvinte. É para ser apreciado inteiro, sem pausas, com tranquilidade. As melodias e as letras são de igual valor e formam uma unidade. Não adianta ouvir sem entender o que está sendo dito.

E o clipe completa este pacote. O clima da ficção científica Kubrickiana, inspiração do disco, é a base do vídeo. A iluminação naturalista, o uso das cores, os tracking shots por corredores, os lentos zoom out… O “Tranquility Base Hotel” é o “Overlook Hotel” do “futuro”.

O plano que mostra Turner andando pela estação de trem é 2001: Uma Odisseia no Espaço puro: em enquadramento, iluminação e tema. Se no filme, o astronauta embarca em uma viagem rumo à evolução da espécie, aqui ele ruma à evolução do som da banda. Na estação, o vocalista, inclusive visualmente, é o do passado.

Já o novo Turner, com o visual atual, constrói o espaço que causará a evolução. Orquestra toda a preparação do hotel, olha sua maquete, em mais uma referência visual de O Iluminado, naquela em que Jack Torrance, em metáfora ao Minotauro mítico, espreitava as vítimas no labirinto.

O futuro do clipe é o hoje. Turner canta sobre a Information Action Ratio, o momento em que a informação em excesso perde seu sentido. O vocalista tenta no álbum, e no clipe, reencontrar o próprio sentido.

Para alguns, Tranquility Base pode significar uma ameaça para a carreira da banda, como Jack Torrance era para sua família. Parece mais, porém, uma viagem espacial que culmina na grande evolução. Como bem dita “2001”.

CIDADE DAS APARÊNCIAS

CIDADE DAS APARÊNCIAS

Por Eric Campi Parolina

Quando, no início de seu mandato como prefeito da cidade de São Paulo, João Dória declarou guerra contra pichadores e grafiteiros, parecia que a ação era apenas uma forma de agradar o eleitorado conservador paulistano, legitimando o flerte com o autoritarismo dessa parcela da população. Eles decidem o que é arte e o que não é, o que é bonito ou feio. A entrada triunfal do programa Cidade Linda, porém, serve de Manifesto para o jeito de governar do tucano nesses primeiros meses.

Se o grafite é a expressão da linguagem da rua, com suas formas de um colorido cru, desenhos caricatos, profundidade metafórica nos comentários sobre a sociedade, o picho se desnuda de qualquer mensagem escondida para gritar com todas as palavras quais são os problemas da cidade. A arte se apresenta em um de seus contornos mais arrebatadores e contestadores. Apagá-la com tinta cinza, mais que uma ação, torna-se um símbolo de mascaração.

Para João “trabalhador” Doria e seus, muitos, entusiastas, toda e qualquer preocupação com a cidade e os habitantes esgota-se no nível da superficialidade. “Não me importa se aquele artista teve algo a dizer, só importa que aquilo não agrada ao meu nível de apreciação”. O jogo da superficialidade se enraíza na falta de compreender o que foge ao senso comum e o parâmetro para o “cidadão de bem” torna-se o estereótipo do que é “bom”.

Um dos programas da prefeitura mais aplaudidos desse começo de gestão é o famoso Corujão da Saúde, com horários alternativos para a realização de consultas e observação médica, cujo objetivo é zerar a fila de 485.300 exames deixada pela gestão do ex-prefeito Fernando Haddad em dezembro. No dia 13 de março, dois meses após o início do Corujão, Dória comemorou o pretenso exame de número 250.000 realizado pelo programa. O governo peessedebista, porém, não disponibiliza os dados oficiais, inclusive agindo contra a lei ao ignorar os pedidos dos jornais Folha de S. Paulo e El País através do sistema de Acesso à Informação. Pode ser que esses dados também estejam escondidos atrás da tinta cinza, quem sabe?

Mesmo que o número seja verdadeiro e não desconsidere as consultas remarcadas (50% dos 485.300 exames foram agendados há mais de um mês, “vencidos” segundo a prefeitura e, portanto, fora da fila), a estimativa é de que são marcados 110.000 novos procedimentos por mês. São 330.000 exames, dos últimos 3 meses, que não entram no programa e que impedem que a fila seja de fato zerada. Visar à melhora do atendimento é uma atitude nobre, mas não basta aplaudir o senso comum, ainda mais quando a ação do governo se mostra equivocada.

Soma-se a esses o programa Trabalho Novo, que pretende dar um ofício para 20.000 moradores de rua e que já empregou o grandioso número de seis pessoas contratadas com CLT pela rede de fast-food Mc Donald´s. Pesquisa feita pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) em 2010, mostra que 66,9% das pessoas em situação de rua da cidade ganham seu dinheiro trabalhando, o que sugere que o grande causador da população sem teto não é o emprego, mas o alto preço dos alugueis e a especulação imobiliária. Nenhum dos dois fatores será combatido pelo prefeito em programas lançados até agora.

Para manter as aparências de que algo inovador e revolucionário vem sendo feito, João Dória calcula gastar até 100 milhões de reais por ano em publicidade, segundo anúncio da Secretaria do Governo Municipal, enquanto áreas como Cultura e Meio Ambiente tiveram gastos reduzidos. Juntas, Educação e Saúde tiveram orçamento de 2,6 bilhões de reais congelados. É preciso muito dinheiro para maquiar as verdadeiras causas e efeitos dos problemas da cidade.

Todas essas ações têm recebido gigantesco apoio público e midiático, acostumados a manter a discussão no nível mais raso. Se rejeitam a profundidade da mensagem dos grafites e pichos, rejeitam também o pensamento crítico aprofundado que deveria ser destinado à esfera social. É sintomático, portanto, que o prefeito João Dória possua em seu gabinete um quadro do artista plástico Romero Britto, de coloridos alienantes. A Cidade é Linda… mas também é Burra.